sábado, 30 de janeiro de 2010

Cinco excertos do amor quase acadêmicos ou Réplica ao subsolo de Dostoiévski


Excerto 1: Dos vícios

Enredava-se sempre e mais. A custo movia-se. O toque do beijo em sua pele era lâmina afiada. Os dedos, seu toque, faziam arder cada poro. Inseto. De vôo apenas aparentemente ágil. Imóvel entoava cantigas, as mesmas, para não esquecer de quem não era. Enredado.
De onde vinham as tramas? As tranças, os fios? Quem era esse contador que não distraía? Sorria o riso da incompreensão, repelia o cinismo. Fabricava o sofrimento mas recusava com veemência a dor. Inseto. Enredado.

Excerto 2: Do desamparo

A imagem era realmente sugestiva: o ratinho, no centro da arena contornada de uma malha elétrica. Através dela era oferecido a ele o alimento. Na verdade, expunham-no-lhe. Aproximava-se da malha com ineditismo, de instinto a cada vez renovado. Em plena bonança, dir-se-ia. Primaveril. Antes mesmo de tocar no alimento era fisgado pela malha, estilete quente acariciando as patas, espalhando pelo corpo o toque cálido. Dilacerante. Importava retornar ao centro. A mão secreta do fracasso ali, insinuando-se. Outra vez. Mais outra. O centro, o pouso, o silêncio.
Uma última vez, quem sabe? Compassado o toque. Convulsivo desejo. O choque. Turbinado. Amante inédito. A dor.
O centro já não importa. Agora é subsolo. Vazio. O efeito último: resignara-se o rato. Desamparado.

Excerto 3: Do medo

Todo medo já é uma forma de desamparo, ou pelo menos, decorre em muito dele. Construir uma referência afetiva próxima é condição para resistir ao desamparo. O bombeiro que teve seu corpo quase soterrado pela parede em chamas quando salvava vidas disse: ... cheguei em casa, abracei minha mulher, abracei meus filhos, disse, o papai quase não volta... Sorriu amarelo. Brilho de lágrimas nos olhos. Desamparo provisório.

Excerto 4: Da responsabilidade afetiva

O afeto pelo outro é uma forma de cuidado de si. Excelente, mas um pouco conceitual demais. Pode-se pensar no afeto mais como uma forma de responsabilidade em relação ao outro. Em relação aos efeitos daquilo que se produz no outro. Isso não supõe a ausência absoluta de confronto com ele, como no Éden. Parece que a questão não está aí, mas nos modos com que se encena esse confronto: no caso das trocas afetivas a lógica parece não poder ser simplesmente aquela dos que defendem não haver, enquanto se permanece humano, fuga do confronto – via de regra tenso – com o outro. Pode-se pensar existirem zonas de diálogo fundadas no cuidado com o outro, naquilo que se nomeia charme, cuja condição de existência está na lisonja ao outro, em sua contemplação como mistério, como veia que abriga marés e remansos, de hoje e de longe.

Excerto 5: Da graça

Por manter a paixão. Por não desistir. Por acreditar na vida somente como invenção. Por ouvir Maysa. Por ler Clarisse. Pelo belo, como exercício de ternura. No quiririm da madrugada...
Quiririm. Disso nada consta de registro no Houaiss. Pior para ele, que nunca sentiu instalar-se o quiririm, pesada hora, em que o silêncio grita. Véu de noite riscado de repente pela voz “Acorda vem ver a lua”. Dilacerante. De respiração presa, o corpo levita. O princípio do prazer acontecendo, existindo, como víscera, tato, coisa.

(Sandoval Nonato Gomes-Santos)

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