quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

poema-distração


quando pedi que dissesses
os lugares comuns
de adelia prado
desconfiava do singelo
de tua voz

desconhecia
que miragem
tua escrita

sábado, 27 de novembro de 2010

Contemplação dos meninos


... quando
o toque ávido nos livros,
a voz fugaz
o sorriso posto
o olhar aprendiz
chegando assim professor
como o brilho de Sol de Maiakóvski

... mas quando?

(São Paulo, apto. Peixoto Gomide, Nov. 2010)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Equatorial


Parece que hoje o mundo chorou!

Os nervos choraram.

E no balsamo verde que rouga em preces

O mar em ouro e verdejante

No teu sorriso ardente, que também chorou. Ânsia de caminhar!

De brincar, de caminhar.

Parece que hoje

A chuva acordou a gente

E gente não cresce sem chuva!

Esta lagrima derramada

Decorada, no Intestino verde.

A alma lavada no tanque da memória

Bate alegre e sonora... a lembrança.

Prece que ora, na roupa que sente!

na porta aberta das horas: Aurora...

Manhãs, de dias simples, aurora novamente. Tarde da noite que chora!

É o dia que chora!

é o dia que na tua alma chorou.

(Jones da Silva Gomes, Abaetetuba, PA)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Uma demanda singular de amor ou Le sourire le plus charmant de Paris.





Pousava a cabeça no ombro do outro. No peito do outro. Escondia os olhos como se quisesse proteger a alma. Não. Como se almejasse entregar a alma, colocá-la em oblação. Um amador. Daqueles que se perdem e, por acaso, se encontram sob as luzes de la vieille ville.

Memorável a noite anterior à partida. O coração palpitava-lhe irregular. Na manhã seguinte, cedo, sob o céu cinzento-de-chuva do instável verão parisiense, contorcia-se por dizer adeus.

A estação do metrô deserta. Como cidade esquecida. Estampava no rosto a saudade, aquela mesma das fachadas de azulejos tristes de Lisboa.

Queria mais. Experimentar mais. Verbalizar mais. Dizer das coisas ainda por fazer, ensemble: reler Baudelaire antes de dormir, tirar uma sesta na tarde morna do verão de Paris, nadar, cozinhar, ouvir João Gilberto e a turma da pesada (Gal e Bethânia incluídas), tomar conhaque, jogar com as palavras. Dizer mais uma vez je t’aime.

Mas não deu. Parce que. Porque a partida é condição do reencontro. Porque acreditava nas possibilidades. Porque apostava no amor. Mas também por desconhecer que melhor que ser amado é ser preferido, como dizia André Gide. E era, sem muito bem saber, preferido.

Sem muito bem saber, tornara exasperado o desejo no outro. Imprimia nele aquilo que em si pouco dissimulava: o amor.

No olhar, ressacado de saudade (de uma saudade antiga), a impressão era aquela mesma: Paris pleurait ses Brésiliens repartis.

(Sandoval Nonato Gomes-Santos, Tarde no aeroporto de Congonhas, em 06/08/2006, inverno paulistano)

sábado, 30 de janeiro de 2010

Cinco excertos do amor quase acadêmicos ou Réplica ao subsolo de Dostoiévski


Excerto 1: Dos vícios

Enredava-se sempre e mais. A custo movia-se. O toque do beijo em sua pele era lâmina afiada. Os dedos, seu toque, faziam arder cada poro. Inseto. De vôo apenas aparentemente ágil. Imóvel entoava cantigas, as mesmas, para não esquecer de quem não era. Enredado.
De onde vinham as tramas? As tranças, os fios? Quem era esse contador que não distraía? Sorria o riso da incompreensão, repelia o cinismo. Fabricava o sofrimento mas recusava com veemência a dor. Inseto. Enredado.

Excerto 2: Do desamparo

A imagem era realmente sugestiva: o ratinho, no centro da arena contornada de uma malha elétrica. Através dela era oferecido a ele o alimento. Na verdade, expunham-no-lhe. Aproximava-se da malha com ineditismo, de instinto a cada vez renovado. Em plena bonança, dir-se-ia. Primaveril. Antes mesmo de tocar no alimento era fisgado pela malha, estilete quente acariciando as patas, espalhando pelo corpo o toque cálido. Dilacerante. Importava retornar ao centro. A mão secreta do fracasso ali, insinuando-se. Outra vez. Mais outra. O centro, o pouso, o silêncio.
Uma última vez, quem sabe? Compassado o toque. Convulsivo desejo. O choque. Turbinado. Amante inédito. A dor.
O centro já não importa. Agora é subsolo. Vazio. O efeito último: resignara-se o rato. Desamparado.

Excerto 3: Do medo

Todo medo já é uma forma de desamparo, ou pelo menos, decorre em muito dele. Construir uma referência afetiva próxima é condição para resistir ao desamparo. O bombeiro que teve seu corpo quase soterrado pela parede em chamas quando salvava vidas disse: ... cheguei em casa, abracei minha mulher, abracei meus filhos, disse, o papai quase não volta... Sorriu amarelo. Brilho de lágrimas nos olhos. Desamparo provisório.

Excerto 4: Da responsabilidade afetiva

O afeto pelo outro é uma forma de cuidado de si. Excelente, mas um pouco conceitual demais. Pode-se pensar no afeto mais como uma forma de responsabilidade em relação ao outro. Em relação aos efeitos daquilo que se produz no outro. Isso não supõe a ausência absoluta de confronto com ele, como no Éden. Parece que a questão não está aí, mas nos modos com que se encena esse confronto: no caso das trocas afetivas a lógica parece não poder ser simplesmente aquela dos que defendem não haver, enquanto se permanece humano, fuga do confronto – via de regra tenso – com o outro. Pode-se pensar existirem zonas de diálogo fundadas no cuidado com o outro, naquilo que se nomeia charme, cuja condição de existência está na lisonja ao outro, em sua contemplação como mistério, como veia que abriga marés e remansos, de hoje e de longe.

Excerto 5: Da graça

Por manter a paixão. Por não desistir. Por acreditar na vida somente como invenção. Por ouvir Maysa. Por ler Clarisse. Pelo belo, como exercício de ternura. No quiririm da madrugada...
Quiririm. Disso nada consta de registro no Houaiss. Pior para ele, que nunca sentiu instalar-se o quiririm, pesada hora, em que o silêncio grita. Véu de noite riscado de repente pela voz “Acorda vem ver a lua”. Dilacerante. De respiração presa, o corpo levita. O princípio do prazer acontecendo, existindo, como víscera, tato, coisa.

(Sandoval Nonato Gomes-Santos)

sábado, 9 de janeiro de 2010

OCA


Projeto OCA
Observatório do Cidadão da Amazônia

Objetivos:

1. Espaço de publicização de produção literária, acadêmica, jornalística de pessoas que nasceram na Amazônia brasileira ou construíram relações de parentesco ou amizade próximas;

2. Espaço de debates em torno de problemas e temas relativos a Amazônia e de proposição de iniciativas para o incremento da qualidade de vida na região.