sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Uma demanda singular de amor ou Le sourire le plus charmant de Paris.





Pousava a cabeça no ombro do outro. No peito do outro. Escondia os olhos como se quisesse proteger a alma. Não. Como se almejasse entregar a alma, colocá-la em oblação. Um amador. Daqueles que se perdem e, por acaso, se encontram sob as luzes de la vieille ville.

Memorável a noite anterior à partida. O coração palpitava-lhe irregular. Na manhã seguinte, cedo, sob o céu cinzento-de-chuva do instável verão parisiense, contorcia-se por dizer adeus.

A estação do metrô deserta. Como cidade esquecida. Estampava no rosto a saudade, aquela mesma das fachadas de azulejos tristes de Lisboa.

Queria mais. Experimentar mais. Verbalizar mais. Dizer das coisas ainda por fazer, ensemble: reler Baudelaire antes de dormir, tirar uma sesta na tarde morna do verão de Paris, nadar, cozinhar, ouvir João Gilberto e a turma da pesada (Gal e Bethânia incluídas), tomar conhaque, jogar com as palavras. Dizer mais uma vez je t’aime.

Mas não deu. Parce que. Porque a partida é condição do reencontro. Porque acreditava nas possibilidades. Porque apostava no amor. Mas também por desconhecer que melhor que ser amado é ser preferido, como dizia André Gide. E era, sem muito bem saber, preferido.

Sem muito bem saber, tornara exasperado o desejo no outro. Imprimia nele aquilo que em si pouco dissimulava: o amor.

No olhar, ressacado de saudade (de uma saudade antiga), a impressão era aquela mesma: Paris pleurait ses Brésiliens repartis.

(Sandoval Nonato Gomes-Santos, Tarde no aeroporto de Congonhas, em 06/08/2006, inverno paulistano)

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